SE FOSSE VOCÊ
A internet não é terra sem lei
Prévia · original em português
Quando cheguei àquela cidade, Davi Ferraz era a pessoa em quem eu confiava.
Foi ele quem me apresentou a Lívia Duarte, numa tarde em que ela esperava o atendimento da mãe e precisava de trabalho. Paramos diante da unidade de saúde. Uma enfermeira apareceu à porta, ouviu a pergunta de Lívia e voltou para conferir o que ainda faltava. Ela ficou de pé, esperando a mulher retornar.
Davi tinha outra notícia. Falara com Samuel Azevedo, um advogado que conhecia muita gente e talvez pudesse ajudá-la. Haveria uma festa naquela noite. Ela poderia conversar com ele.
Eu também iria. Tinha acabado de chegar e era bom ser incluído em alguma coisa.
Queria que Lívia conseguisse o trabalho. Quando a vi entrar na festa com outra roupa, ajeitando a gola, pensei no esforço que fizera para estar ali.
Samuel ofereceu uma cadeira. Ouviu suas capacidades. Disse que poderiam conversar na manhã seguinte.
Ela perguntou o que precisava levar. Depois, qual seria o trabalho.
A resposta não veio. Havia possibilidades, ele precisava conhecê-la melhor. Pousou a mão no braço dela e perguntou se podia contar com sua confiança.
Eu insisti nas tarefas. Lívia olhou para mim, preocupada. Precisava daquela oportunidade, e eu estava tornando a conversa difícil.
Mais tarde, perguntei a Davi o que ela faria.
— O trabalho que ela aceitar fazer.
Ele acreditava ter ajudado.
Eu conhecia sua generosidade. Custou admitir que também conhecia, agora, aquela resposta.
Foi Lívia quem me contou como recebeu a primeira imagem.
Estava em casa. Eram três e quatorze da madrugada. Na tela, reconheceu uma frase que escrevera meses antes, numa conversa privada.
Ampliou com dois dedos.
Procurou a frase seguinte.
Lembrava dela. Lembrava até de ter voltado para corrigir o que escrevera, para não deixar dúvida sobre o que queria dizer.
A imagem terminava antes.
Abriu a conversa original e começou a subir a tela. Passou do ponto. Voltou. Quatro páginas tinham desaparecido daquele recorte. Ela as leu de novo, com o coração batendo forte, e sentiu alívio: estava tudo ali. Bastava mostrar.
Copiou um trecho. Apagou. Decidiu mandar a conversa inteira.
Então parou com o dedo sobre a tela.
Mandar para quem?
Não sabia quem tinha recebido a imagem. Se a enviasse a alguém que ainda não a vira, precisaria mostrar também a acusação da qual tentava se defender. Se escrevesse demais, talvez parecesse uma desculpa. Se ficasse quieta, o silêncio poderia ser usado como resposta.
— Eu sabia o que tinha dito — ela me falou. — Mas comecei a ler como se fosse outra pessoa.
Era a própria frase. Isso tornava tudo pior.
Lívia procurou a amiga da igreja.
Já tinha recebido dela mensagens de carinho, palavras de oração, perguntas sobre como estava. Quando ouviu que podia desabafar, começou tentando explicar a imagem. Acabou contando que não dormia, que tinha medo de sair, que não sabia mais como cumprimentar as pessoas.
Gravou um áudio. Precisou parar no meio para respirar.
A amiga respondeu com cuidado.
As mensagens preservadas mostrariam o que Lívia não tinha como ver. Em outra conversa, aquele cuidado não apareceu. Apareceu o áudio. Alguém pediu que retirassem uma parte e conservassem outra.
Lívia agradeceu por ter sido ouvida.
O choro seguiu adiante.
As conversas que cercavam Lívia passavam por gente acostumada a receber a intimidade dos outros. A biomédica escutava confidências na clínica enquanto atendia; depois soltava uma insinuação no grupo. A fotógrafa guardava os arquivos que não entregava aos retratados. Conhecia a diferença entre a imagem escolhida e o que ficara fora dela.
Quando a criadora de conteúdo recebeu material sobre Lívia, conferiu o que poderia prender a atenção. Onze segundos, uma legenda, publicar. Voltou para acompanhar os números.
Para Lívia, aqueles números tinham rostos possíveis. O vizinho que entrava no elevador. A pessoa a quem pediria trabalho. Quem lhe ofereceria uma cadeira na próxima vez.
Uma jornalista diante do recorte pediu a conversa inteira. Pôs as imagens lado a lado e apontou o lugar onde faltava a continuação.
Era possível enxergar o corte.
Isso não fazia a primeira imagem voltar dos telefones que já a tinham recebido.
As conversas preservadas mostravam outros interesses: contratos a conservar, convites que ninguém queria perder. O dinheiro de um empresário de combustíveis sustentava campanhas e contratos naquele círculo. O medo de perder espaço aparecia no que aquelas pessoas pediam umas às outras.
O dossiê ligava três perfis anônimos a um lote de chips comprado de madrugada. Por isso importava o que o gerente do posto sabia sobre aquelas compras. Havia imagens da conveniência preservadas; alguém estivera diante do balcão antes de se esconder atrás de uma conta.
Os registros permitiam procurar esse caminho. Ainda faltava saber quem decidira cada ataque.
Lívia começou a levar a mão ao telefone mesmo quando ele não tocava.
Desligava o aparelho e tentava deixá-lo numa gaveta. Minutos depois, buscava outra vez. Enquanto a tela ficava escura, as outras continuavam acesas. Podiam estar escrevendo alguma coisa. Podiam ter mandado mais uma imagem.
Ela precisava saber.
Precisava parar de saber.
Quando chegou ao escritório de Samuel Azevedo, colocou o telefone sobre a mesa e manteve os dedos presos à capa.
Ele era advogado. Podia examinar as mensagens, os horários, os registros. Havia coisas a fazer com aquilo além de reler até amanhecer. As pessoas que mandavam, recortavam e ameaçavam podiam ser chamadas a responder pelo que tinham feito. Uma tela não lhes garantia proteção.
Mas nenhuma explicação jurídica fazia Lívia soltar o aparelho.
O mesmo homem que lhe oferecera uma oportunidade sem dizer qual era o trabalho estava agora diante dela, esperando ouvir o que acontecera.
Ele podia ajudar.
Lívia precisava que ajudasse.
Sobre a madeira, Samuel abriu a mão.
Para começar, ela teria de entregar o telefone. As mensagens, o medo, aquilo que tinha contado em confiança. Tudo o que já fora usado para feri-la.
Como escolher a quem contar o resto, depois de descobrir o que fizeram com a primeira confidência?